Era uma tarde de chuva quando ela apareceu na porta. Uma menina pequena, cabelo molhado, sapatos encharcados. Nas mãos, nada além de uma boneca de pano, apertada contra o peito como se fosse a coisa mais valiosa do mundo. Talvez fosse.
A mãe pediu desculpas pela chuva, pela roupa, pelo horário. A menina não pediu desculpas por nada. Apenas olhou em volta, ajeitou a boneca no colo e esperou.
"Ela não trouxe um book. Não trouxe currículo. Trouxe o que tinha de mais honesto."
Naquela tarde a gente entendeu que uma agência de crianças não podia ter qualquer nome. Precisava de um nome que lembrasse, todos os dias, de onde cada família chega — com um sonho pequeno no colo, muitas vezes molhado pela chuva, quase sempre mais frágil do que parece.
A menina cresceu. A boneca ficou. O nome também.
É por isso que, até hoje, antes de qualquer teste, a gente pergunta primeiro: o que você trouxe no colo?